Texto de 29/05/2006

A viagem já era muita mais do que o esperado, foram mais de 14 dias com o Dalai Lama, ensinamentos sobre filosofia budista de grande complexidade, mas ao mesmo tempo transformadores. As aulas de yoga, com o famoso professor de Dharamsala, Vijay Amar, foram puxadas, mas muito proveitosas. Agora, era hora da próxima novidade: Aula de Economia para os monges.

A idéia surgiu depois que eu escrevi o livro, em parceria com o Lama Padma Samten, chamado: O Lama e o Economista. O monge brasileiro, Gabriel Ngawang Temphel soube do livro, e também do desejo do fundador do mosteiro em que estuda, Dzongsar Khyentse Rinpoche, de trazer cientistas ocidentais para ensinar aos monges, cuja formação de 10 anos é totalmente estruturada na filosofia budista.

Ao saber de minha visita à Índia, o monge Gabriel propôs ao abade do mosteiro um curso de Introdução à Economia, o que foi aceito pelo mosteiro, e por mim também, como um desafio pedagógico.

O Monastério

O Dzongsar Chokyi Lodroe College of Dialetcs, fica em uma colônia tibetana, no norte da Índia, chamada Bir. Formado por um belíssimo templo, mais o conjunto residencial que abriga 600 monges (vagas esgotadas), e pretensão de ampliação para 1.000 no futuro. Além do edifício do restaurante e outro, de atividades especiais.

São 500 monges que, se tiverem sucesso, vão passar por uma formação de 10 anos, de profundo estudo das principais escolas do pensamento budista, estruturados nos esforço de horas e horas de aulas, memorizações e debates.

A rotina do mosteiro inicia às 05 horas da manhã, terminando 22 horas, todos os dias, somente com o domingo de folga.

O Fundador

Dzongsar Khyentse Rinpoche é considerado um grande mestre do Budismo Tibetano, a reencarnação de Jamyang Khyentse Chokyi Lodro (1893-1959). Uma de suas principais características é a forma poderosa e moderna que consegue modernizar os ensinamentos do Buda, principalmente para o público ocidental. Auxiliou Bertolucci na direção do filme “O Pequeno Buda”, onde faz uma pontinha no final do filme, além de ter dirigido o filme “A Copa”, onde mostra a importância do futebol brasileiro (que é real), na vida dos monges tibetanos.

Preparação das aulas

A idéia inicial era que os monges tivessem um curso de introdução à Economia, mas só isto não era suficiente para o bom preparo das aulas. Uma metodologia tradicional de ensino, desmembrando as teorias mercantilistas, Adam Smith, David Ricardo, e outros, não seria suficiente. Era importante definir exatamente quem eram os alunos do curso. Isto foi definido uma semana antes de minha chegada, seriam os alunos de penúltimo e último ano da formação, isto é nono e décimo ano. Em outras palavras, os melhores debatedores. Por que debatedores? A estrutura de ensino não se fundamenta nas ciências ocidentais, portanto, eles possuem conhecimentos básicos de matemática, biologia e geografia, mas em compensação, em lógica, e fundamentação filosófica, eles são perfeitos.

Optei por iniciar as aulas estruturando os argumentos em apresentações de gráficos, pois o raciocínio matemático por detrás dos gráficos daria a sustentação lógica para que eu não fosse derrubado com o constante questionamento. Porém, notou-se que quando eu relacionava a história econômica, com um paralelo da história tibetana, o nível de interesse saltava em qualidade, e assim foi feito, portanto, por si só, o curso se transformou, e focamos muito mais em uma História do Pensamento Econômico. Além disto, usamos jogos, atividades em grupos e alguns desafios, para dinamizar a aula. Exercícios de matemática serviram como base para estruturar os jogos e fundamentar as idéias abordadas. É bom ressaltar que as razões econômicas que justificaram a invasão chinesa, do Tibet, também foi um assunto de muito interesse.

Futebol

Eram inevitáveis as perguntas sobre futebol. Eles gostam muito do futebol brasileiro. Entre as infrações que tem penalidade no monastério, a pior de todas, é dormir fora. Pois isto significa a possibilidade de relacionamentos amorosos. A pena para uma noite fora do monastério é de 1 ano de expulsão. No contexto, esta pena é muito dura, pois eles não têm muitas opções do que fazer neste período, além de perder, o teto e oamida que o mosteiro oferece.

Enfim, quando o Brasil joga, já aconteceu de alguém se arriscar. Pular o muro de madrugada para ver nossos craques.

Na final das copa das Confederações, foi feita uma requisição especial ao abade, para que o jogo contra a Argentina pudesse ser visto. Pedido feito, desejo concedido. Perguntei o motivo de tanto amor pelo futebol brasileiro, e eles me responderam: Vocês são os melhores e não precisam usar a violência como os outros.

Final do Curso

Ao final, foi feito um debate entre os monges sobre o benefício que o conhecimento de economia poderia gerar, e o benefício que o dharma (ensinamento) do Buda poderia nos dar. Foi lindo, como eles tão rapidamente utilizavam os argumentos econômicos para estruturar a lógica de pensamento.

Eles utilizaram a idéia de maximização de resultados, eficiência e desenvolvimento econômico como geração de bem-estar com bastante propriedade.

Mas, concluíram, não é pela Economia que seremos seres iluminados!

O Díálogo entre Economia e Budismo

A economia hoje se depara com novos modelos, e problemas, onda a escassez de recursos, nos leva a pensar em prioridades e ética, mais do que uma simples busca de acumulação do capital. Neste ponto, o livro que escrevi com Lama Padma Samten, “O Lama e o Economista”, mas sobretudo, o livro de Sua Santidade, o Dalai Lama, “Compaixão ou Competição” nos apontam a necessidade de unirmos a competição ao altruísmo.

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