Texto de 08/10/2007

Ao estudar com sua Santidade o Dalai Lama, não percebi a grandeza e importância da transmissão do texto que estava recebendo.
O Grande Tratado do Caminho da Iluminação, de Tsongkapha, é um dos principais textos da filosofia budista tibetana. Tsongkapha é uma das figuras mais signifativas da linhagem Gelupa do Budismo Tibetano, a qual pertence o Dalai Lama.
Estudamos por 15 dias, durante todo o dia, das 09 às 16 horas, uma raridade.
O texto abrange o estudo de todos as caminhos do ensinamento budista, tomando como base a estrutura de Atisha, guru indiano, que coloca os ensinamentos em ordem para melhor entendimento, e a dissolução de qualquer perspectiva sectarista ou discriminatória quanto à qualquer tipo de prática espiritual.
Apresenta os aspectos dos ensinamentos do Buda através de Sila, Dhyana e Prajna, ou seja, ética de conduta, Meditação e Sabedoria.
Além de trabalhar de forma profunda o estudo das 5 escolas filosóficas do Budismo, conforme ensinado pelos tibetanos, estruturada de uma maneira entender o ponto de vista de cada escola, de acordo com o evoluir de nossa prática pessoal.

Pode-se dizer que a classificação seria de 4 escolas, já que as duas últimas são classificadas como Madhyamika (Caminho do Meio), porém a diferença entre elas é significativa, pois uma é baseada no silogismo (Svatantrika), enquanto que a outra, baseia-se no reductio ad absurdum, isto é, através de um estruturado questionamento de conseqüências. (Prasangika).

Segundo Sua Santidade: “Estudar as doutrinas destas escolas ajuda a evitar que se fique paralisado no que é apenas um entendimento parcial da verdadeira natureza da vacuidade e nos proporciona maior apreço pela profundidade do ponto de vista mais sutil.”

Vale dizer que o Dalai Lama ministra ensinamentos e conferências a grandes públicos, e além da função de líder espiritual, acumula tarefas de chefe de estado, portanto, é obvio que a relação entre Sua Santidade e muitos de seus ouvintes não é a relação estreita de guru-aluno. Quando da sua última visita ao Brasil, em 2006, em reunião com os organizadores de sua visita, quando perguntado sobre se poderíamos considerá-lo nosso mestre, ele respondeu que sim, desde que verificássemos se vemos nele estas qualidades.

Confesso a vocês que muitos dizem ter estudado com o Dalai Lama, mas poucos levam a sério suas palavras, e mais, realmente se aprofundam nos ensinamentos por eles transmitidos. Já presenciei vários importantes lamas se posicionarem ao lado do Dalai Lama, mas disseminarem ensinamentos bem contraditórios aos por ele propagado. Assim, não há um critério perfeito para avaliar o quanto o ensinamento de Sua Santidade foi assimilado, a não ser a própria dedicação, estudo e prática daquele que recebe.
Neste texto, apresento uma rápida introdução a estas 5 escolas, que preparei para os estudantes estrangeiros em Dharamsala, quando dos ensinamentos, como forma de acompanhar o que Sua Santidade nos ensinava. Fiz com base em publicação de Yangsi Rinpoche, aluno de Lama Zopa Rinpoche.

Escola Vaibashika

Aceita a existência inerente (fenômenos).
Não aceita a existência inerente do self.
Partículas de átomos e a consciência são a realidade última.

Escola Sautantrika

Aceita a existência inerente (fenômenos).
Não aceita a existência inerente do self.
Não aceita a possibilidade de uma consciência sem duração.
A consciência é um contínuo.
Os fenômenos compostos, por causas e condição, são a realidade última.

Escola Chittamatra (Mente-Apenas)

Todos os fenômenos são realidades convencionais.
Nega a realidade última dos objetos externos da escola anterior.
Existe uma consciência fundamental, chama de self, que é neutra por natureza, e funciona ininterruptamente até o nirvana.
As coisas existem devido aos seus registros na nossa consciência.
O estabelecer dos fenômenos é a realidade última, ou seja, assim sendo, a vacuidade tem existência intrínseca.

Escola Svatantrika-Madhyamika

Nenhuma escola Madhyamika aceita a real existência do fenômeno, mesmo no nível convencional.
Porém, a Escola Svatantrika aceita a existência do fenômeno, pelas suas próprias características. (Pontos de vista diferem entre Bhavaviveka, Kamalashila e Shantarakshita, outros mestres desta escola)
Bhavaviveka é seu principal filósofo, que comenta a partir de Nagarjuna.
Bhavaviveka afirma a possibilidade de fenômenos sem registros na consciência, opondo-se à Chittamatra.
Rejeita a real existência da vacuidade.
Não aceita a idéia de registros, mas aceita a idéia de uma consciência fundamental que registra.
A Escola aceita a visão de realidade última em um fenômeno que exista pelas suas próprias características, mas não aceitam fenômenos existentes com base em um único modo de existência.
Como é isto? Eles aceitam que o fenômeno surge no encontro de sujeito e objeto. Isto é contrário a existência do objeto pelo seu próprio modo.
Quando um fenômeno é investigado em busca de sua realidade última, a algo a ser encontrado.
Não acredita em fenômenos com bases apenas na mente, pois acreditam ser impossível a aplicação de causa e efeito.
Em resumo, aceitam a existência inerente, ou seja, o objeto pode ser encontrado quando buscado sua realidade última, mas ele não é a realidade última, pois não pode existir por seu próprio modo de existência.

Escola Prasangika-Madhyamika

Quando um fenômeno é investigado em busca de sua realidade última, nada se encontra.
Dá-se importância a uma correta compreensão de vacuidade.
Procura-se primeiro reconhecer a vacuidade do sujeito, depois do objeto.
Isto não significa que o fenômeno não exista, apenas não possui realidade última, por exemplo, quando analisa-se a noção de EU, e se vê que ela é composta de agregados.
A Escola Prasangika fala em existência convencional.
O que não tem existência inerente, não pode ser dito que não existe.
Segundo Nagarjuna, para que um fenômeno tivesse existência inerente, deveria: não ser afetado por causas e condições, não pode ser dependente de outro fator, não poderia se transformar em outra coisa, mesmo que temporariamente.
Portanto, não há fenômeno que tenha existência inerente.
Os principais filósofos da escola são Buddhapalita e Chandrakirti, que comentam também a partir de Nagarjuna.

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