Quero em primeiro lugar agradecer ao Tales e a Crhis, do Cadernos de Yoga, pela iniciativa e solicitação, de que eu fizesse uma pesquisa completa sobre a História do Yoga no Brasil. Conversávamos sobre como existem versões imprecisas sobre o histórico dos acontecimentos, e aí surgiu a ideia.
Nesta edição de Outono da revista, Cadernos de Yoga, o artigo saiu publicado, e soube da publicação através de telefonema do Prof. Hermógenes, que queria elogiar o material que acabara de ler. Se quiser comprar a histórica edição, acesse www.cadernosdeyoga.com.br.
Deixo abaixo o artigo, e espero que aprecie.
(Na foto, o autor com o precursor, Shotaro Shimada)

A História do Yoga no Brasil
Este tema deveria ser menos polêmico do que costuma ser. Infelizmente ele não o é, e acredito pessoalmente por dois motivos, primeiro o caráter não acadêmico (e científico) com que o mesmo foi tratado. Em segundo lugar, e talvez, justamente por decorrência do primeiro motivo, a falta de um trabalho de característica séria e científica propiciou que o tema fosse utilizado como ferramenta de marketing de professores que buscavam se estabelecer profissionalmente. Esta estratégia de marketing também parece contar com a tentativa de que se contarmos uma mentira, muitas e muitas vezes, ela aparecerá como verdade, até em uma pesquisa superficial no Google, ela também aparecerá como verdade.
Na intenção de minimizar o impacto das inverdades e tentativas de vantagem sobre este assunto, e também preservar o nível mais preciso de informações, estarei retratando o mesmo da forma mais breve possível, porém apenas citando fontes que tenham o mínimo de independência em relação à informação apresentada, ou que a informação não seja conflitante com outras fontes. Espero desta forma estar sendo o mais preciso e científico possível.
Para nos situarmos historicamente, cito algumas referências históricas para nos ajudar. Assim, podemos lembrar que em 1893 Swami Vivekananda impressiona a todos em Chicago, em seu discurso no Congresso das Religiões, assistindo-o estava Sr. William Walter Atkinson (depois: Yogi Ramacharaka), Annie Besant escreveu “Introdução ao Yoga” em 1908, já como presidente da Sociedade Teosófica, em 1920 foi fundada a Self Realization Fellowship, por Paramahansa Yogananda. Em 1924 é fundado o Kaivalyadhama Yoga Institute, por Swami Kuvalayananda, para estudo dos efeitos do yoga. Na década de 1930 Krishnamacharya ensina em Mysore, onde iniciam-se K. Pattabhi Jois, Indra Devi e B.K.S. Iyengar. Em Setembro de 1933 morre Annie Besant. No final da década de 1930, Elizabeth Haich funda a primeira escola de yoga da Europa, em Budapeste, que funcionou até 1944, por causa da II Guerra Mundial. Depois do término da guerra, junto com o indiano Selvarajan Yesudian, Haich continua a escola de yoga em Zurique. Em 1933, Mircea Eliade publicou sua tese, que seria denomindada “Yoga, Imortalidade e Liberdade”. Em 1936, Swami Sivananda funda a Divine Life Society. Em 1946 é publicado o livro Autobiografia de um Yogue. Indra Devi chega a Hollywood em 1947. Gandhi é assassinado em outubro de 1948, mesmo ano que Swami Sivananda funda a Yoga Vedanta Forest Academy em Rishikesh. Em 1953, Elizabeth Haich e Yesudian publicam Yoga and Sport. Desikachar inicia seus estudos com seu pai, Krishnamacharya, em 1961. Em 1966 Iyengar publica “Luz sobre o Yoga”.
Muito bem, com este panorama do yoga até a década de 1960 podemos voltar nossos olhos para o Brasil, indiscutilvemente a prática do yoga no Brasil se inicia com os trabalhos do francês Leo Alvarez Costet de Mascheville(1901 – 1970), denominado Swami Sevananda, que segundo a própria biografia divulgada pela Ordem que fundou, Ordem dos Sarvas Swamis, instalou-se no Uruguai em 1932, e de lá, parte em junho de 1952, de jipe e trailer por uma jornada pelo Brasil. Ele e sua segunda esposa, Sadhana, chegam a Resende, no Rio de Janeiro em 1953.
Existem informações prévias sobre um grupo de estudo de Lages (SC), que não se encontra registro em documentos oficiais. Tenho em mãos cópias oficiais dos documentos de fundação do Monastério Amo-Pax, (AMO significa Associação Mística Ocidental) que possui fundação legal em 29/10/1953 e fundação mística (ou celebração de inauguração, como queira) em 20/11/1953. Nos documentos de fundação, relata-se até a presença do cão Nero que insistiu em assistir à cerimônia.
Não há nenhum registo anterior de atividades de aulas de yoga até esta data no Brasil. Em material da própria AMO-Pax, haviam muitos horários de práticas meditativas entre os trabalhos do monastério, mas o material apresenta com especial destaque as práticas de yoga ministradas por Vayuananda (Juan Carlos Ovídio Trotta). O monastério se dissolve logo no início dos anos 60 e Vayuananda chega a ter um período curto de trabalho na Academia Hermógenes.
A primeira academia de Yoga do Brasil foi fundada por Shotaro Shimada (1929-2009), brasileiro, nascido em Bauru, que inaugurou sua academia em São Paulo, no mês de abril de 1958, e começou a estudar o yoga através de exercícios respitatórios, e os chamava de “ginástica respiratória”, pois sentia uma certa resistência das pessoas em relação ao termo yoga. Seus estudos iniciaram-se com livro do Yogi Ramacharaka, mas já os aprofunda com o aluno médico José Aletto Neto, e na sequência se aproxima do Kaivalyadhama Yoga Institute.
A primeira academia de yoga do Rio de Janeiro foi fundada por Jean Pierre Bastiou em dezembro de 1958. Ele era francês, chegou no Brasil em 1952, e se tornou monge da AMO-PAX com o nome de Hridayadasa, posteriormente aprofunda-se no yoga através dos ensinamentos de Swami Sivananda.
Em 1960, o primeiro livro de Yoga é publicado no Brasil pela editora Freitas Bastos, “Libertação pelo Yoga” de Caio Miranda, com grande sucesso, obra influenciada pela proximidade do autor à Sociedade Teosófica, onde tem o yoga apresentado por Annie Besant.
Também em 1960 surge o maior sucesso editorial sobre o yoga do Brasil, hoje, março de 2010 está na sua 53a. edição. Entre autores brasileiros de qualquer área, já seria um livro de venda e repercussão excepcional: Autoperfeição com Hatha Yoga do Prof. Hermógenes, que abre a Academia Hermógenes no Rio de Janeiro em 1962. Hermógenes publica seu trabalho a partir de sua experiência de superação de uma tuberculose, estudos de diversos mestres da espiritualidade e principalmente o trabalho de Elisabeth Haich e Selvarajan Yesudian.
Vale lembrar que Hermógenes já era autor e professor anteriormente à publicação de Autoperfeição com Hatha Yoga, em alguns destes livros alguns princípios do yoga já eram abordados, são eles: Iniciação à Nossa História, A Pergunta Que Ensina (sobre História do Brasil) e Programa de História (Saltando Obstáculos)
Até aqui temos todas as raízes e pioneiros do desenvolvimento do Yoga no Brasil. É claro que a história poderia continuar com o forte trabalho de expansão feito por Caio Miranda, e descontinuado após sua morte em 1969 (fumava muito e teve problemas pulmonares), seguido por outro tipo de expansão do yoga feito por Luiz Alvarez De Rose, que não pode continuar seus estudos com Hermógenes e seguiu uma interpretação própria e muito particular de yoga, além do trabalho de Maria Celeste de Castilho que iniciou seus estudos com Shimada, quem também iniciou aprendizado com Shimada foi Maria Helena de Bastos Freire, que está à frente do Centro de Estudos Narayana, fundado em 1966 em São Paulo.
Porém o desenvolvimento deste texto para o detalhamento destes outros trabalhos escaparia do objetivo de explicar as principais raízes do Yoga no Brasil, e criaria a necessidade de muito mais explicações e pesquisas.

Referências Bibliográficas fundamentais:
A Ioga do Mestre e do Aprendiz – Shotaro Shimada e Wagner Carelli
www.orion.med.br
Monastério AMO-Paz Ashram de Sarva-Yoga e Monastério Essenio
Acervo de entrevistas pessoais com Shimada, Hermógenes, Maria Celeste Castilho, Pedro Kupfer e André De Rose
Autoperfeição com Hatha Yoga de Hermógenes
Yoga, Mitos e Verdades de Luiz Alvarez De Rose
www.yoganarayana.com.br
en.wikpedia.org

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