Manifesto Palantir: Por Que o Texto de Alex Karp Assusta o Mundo

Você já sentiu aquele frio na espinha ao ler algo que parece saído de um romance distópico — mas está acontecendo agora, em 2026, com uma empresa real, contratos reais e armas reais?

Em abril deste ano, a Palantir Technologies — a mesma empresa que fornece software de vigilância para agências de inteligência, forças militares e polícias ao redor do mundo — publicou no X um resumo de 22 pontos do livro The Technological Republic, escrito por seu CEO, Alex Karp. O post viralizou: mais de 30 milhões de visualizações. E o que parecia ser apenas mais um thread corporativo se transformou em um dos debates mais intensos sobre tecnologia, poder e o futuro da democracia.

Mas não se engane: isso não é filosofia flutuando no vácuo. Como bem observou Eliot Higgins, fundador do Bellingcat, esses 22 pontos são a ideologia pública de uma empresa cuja receita depende da política que está defendendo.[1] A Palantir não é um think tank. É uma contratada do Departamento de Defesa americano, cujo software de segmentação por IA foi usado na guerra do Irã. Quando essa empresa publica um manifesto, não estamos diante de um exercício acadêmico — estamos diante de uma declaração de intenções.

Para entender por que esse texto foi chamado de “devaneios de um supervilão” por parlamentares britânicos e de “tecnofascismo” por acadêmicos,[2][3] precisamos olhar para ele com as lentes que revelam o que está em jogo: não apenas as palavras, mas o que elas escondem.

O que diz o manifesto — e o que ele realmente significa

Sim, o manifesto da Palantir é um conjunto de 22 afirmações que vão da geopolítica à religião, passando por cultura, tecnologia e serviço militar. Mas o fio condutor é claro: a democracia liberal precisa de poder bruto para sobreviver, e esse poder será construído sobre software — especificamente, o software que a Palantir vende.

O texto abre com uma convocação: “O Vale do Silício deve uma dívida moral ao país que tornou possível sua ascensão. A elite da engenharia tem a obrigação afirmativa de participar da defesa da nação.” Soa nobre, não? Mas a pergunta que o manifesto nunca responde é: defender a nação contra quem, exatamente? E com que limites?

A partir daí, Karp constrói sua visão em camadas: precisamos nos rebelar contra “a tirania dos apps”, porque o iPhone — nossa maior realização como civilização — está limitando nosso senso do possível. O poder brando falhou. Armas de IA serão construídas; a única questão é quem as construirá. O serviço militar deveria ser universal. A Alemanha e o Japão foram “neutralizados” em excesso depois da Segunda Guerra. Algumas culturas produziram avanços vitais; outras “permanecem disfuncionais e regressivas”.

O que torna esse texto tão perturbador não é nenhum ponto isolado — é a arquitetura que ele monta. Cada afirmação prepara o terreno para a seguinte, como peças de dominó que, ao cair, formam uma imagem inequívoca: a de um mundo onde a força substitui o debate, onde a tecnologia não serve à vida mas ao domínio, e onde quem constrói as armas decide o que é virtude.

Como observou Mark Coeckelbergh, especialista em ética da IA, o manifesto é “tecnofascismo à vista de todos”.[3] E o que mais assusta é precisamente isso: está à vista, e ainda assim muita gente trata como se fosse apenas marketing.

De onde vem esse pensamento — e o que ele revela sobre o momento que vivemos

Para entender a gravidade do manifesto, é útil recuar e perguntar: de que tradição ele emerge?

Alex Karp tem doutorado em teoria social neoclássica pela Universidade de Frankfurt. Não é um engenheiro que tropeçou na filosofia — é alguém que estudou as estruturas do poder e escolheu, deliberadamente, um lado. A Palantir foi fundada por Peter Thiel, o mesmo investidor que há anos financia políticos e ideólogos que rejeitam a democracia como a conhecemos. O nome da empresa, aliás, vem das palantíri de Tolkien — as pedras videntes usadas para vigiar e controlar. Não é sutileza: é admissão.

O manifesto não surge do nada. Ele é o ponto de chegada de décadas de fusão entre Silicon Valley e o Pentágono — uma fusão que se acelerou dramaticamente com a guerra do Irã e a corrida armamentista de IA. Mas o que torna este momento diferente é a explicitude. Não se trata mais de lobby nos bastidores ou de portas giratórias entre governo e iniciativa privada. Trata-se de publicar, para 30 milhões de pessoas, que a sua empresa quer ser a fabricante de armas do próximo século — e que isso é um dever moral.

Há algo profundamente revelador na forma como esse manifesto foi publicado. Não foi um discurso, um livro ou um artigo. Foi uma thread de 22 pontos no X — a mesma plataforma onde se discute futebol, memes e reality shows. Isso não é incidental. A forma é o conteúdo: ideias complexas e perigosas reduzidas a pílulas digeríveis que viralizam, como se o destino da civilização coubesse no mesmo feed do seu almoço. A banalização do poder letal começa na embalagem.

O que está realmente em jogo: quando “não há alternativa” vira produto

Há uma frase no manifesto que funciona como chave-mestra: “A questão não é se armas de IA serão construídas; é quem as construirá.”

Leia de novo. Perceba o movimento: a pergunta anterior — devemos construí-las? — simplesmente desaparece. É substituída por uma falsa escolha binária: ou nós ou eles. O mesmo movimento lógico que sustentou a corrida nuclear por décadas, agora transposto para a inteligência artificial, com a diferença crucial de que, desta vez, a empresa que faz a pergunta é a mesma que vende a resposta.

Esse é o coração do problema. O texto inteiro opera numa lógica de pensamento único: a preparação para a guerra é a paz. A vigilância total é a segurança. O serviço militar obrigatório é a liberdade. Questionar qualquer dessas premissas não é discordar — é ser ingênuo, idealista, desconectado da realidade.

Mas a realidade, aqui, é um produto à venda.

O que torna esse mecanismo tão eficaz é que ele não se apresenta como ideologia. Ele se apresenta como pragmatismo. “Nossos adversários não farão uma pausa para debates teatrais.” Tradução: não pense, apenas aja. Não debata, apenas consuma. É a colonização do desejo por uma visão de mundo onde a força é virtude e a compaixão é fraqueza.

E aqui está o ponto que mais me importa: essa visão de mundo é a antítese exata de algo que aprendi com Thich Nhat Hanh. Interser — a compreensão de que nada existe isoladamente, de que você não tem ligações com o mundo, você é as ligações. O manifesto da Palantir é o oposto absoluto disso. Ele precisa dividir o mundo em nós e eles. Em culturas que “produziram avanços” e culturas “disfuncionais”. Em amigos que merecem proteção e inimigos que merecem aniquilação. A separação não é um subproduto do argumento — é o motor do negócio. Sem um “eles”, não há “nós”. Sem um inimigo, não há produto.

Como isso afeta você — e por que o Brasil está no meio disso

Se você acha que esse é um debate distante, sobre uma empresa americana e suas ambições geopolíticas, preciso te contar algo.

A Palantir já está dentro do governo brasileiro.

Desde março de 2024, a empresa faz a gestão e a análise de dados do Programa Nacional de Apoio ao Transporte Escolar, o Pnate — programa que viabiliza o acesso à escola pública de estudantes de áreas rurais e isoladas. Os softwares em uso são o Palantir Foundry e a plataforma de inteligência artificial da empresa, a AIP. E aqui está o detalhe que deveria nos fazer parar tudo e prestar atenção: não houve licitação para contratá-la. A entrada se deu por uma triangulação entre o Serpro, a nuvem da Amazon e seu marketplace. Ou seja: uma estatal criada para sustentar a soberania digital do país foi convertida em porta de entrada para uma empresa que declara, por escrito, que sua obrigação é defender os interesses dos Estados Unidos.[1]

A denúncia partiu do sociólogo Sérgio Amadeu, da UFABC, e chegou ao Congresso pelas mãos do deputado Rui Falcão. O próprio Relatório de Gestão do FNDE registrou a aquisição como parte de uma “ampliação dos investimentos em inovação tecnológica”. O FNDE se defende dizendo que os dados são públicos e a operação é conduzida por servidores brasileiros. Mas a crítica de fundo não é sobre privacidade — embora seja grave, por se tratar de dados ligados a crianças e adolescentes. O argumento estrutural é a dependência: o Estado não está apenas comprando software, está cedendo soberania operacional a uma plataforma sem a qual deixa de conseguir funcionar.

E não para no MEC. Em outubro de 2025, o Ministro da Saúde viajou a Londres para renovar a parceria bilateral entre o SUS e o NHS britânico. O que o comunicado oficial não menciona é que o NHS opera sua plataforma central de dados sob um contrato de £330 milhões com a Palantir — contrato que gerou resistência feroz de organizações de direitos digitais no Reino Unido.[2] Pesquisadores da Fiocruz e do LAPIN já alertaram sobre a falta de transparência nessa cooperação.

Some-se a isso a declaração do próprio vice-presidente da Palantir para a América Latina, que afirmou em agosto de 2024 que o sistema da empresa “agora alimenta muitas das organizações mais importantes do Brasil, de agências governamentais de saúde pública e educação”. Sem nomear contratos. Sem especificar quais dados. Sem que nenhuma autoridade brasileira exigisse esclarecimento público.

A lógica do “poder bruto” não fica contida nos mísseis: ela escorre para a saúde, para a educação, para os dados dos seus filhos. O software que segmenta alvos militares é estruturalmente idêntico ao que organiza rotas de transporte escolar. A diferença é o usuário final — e a ausência total de debate público sobre quem está operando o quê, com quais dados, a serviço de quem.

O manifesto defende explicitamente o retorno do serviço militar obrigatório e anuncia que a era da dissuasão atômica está terminando, substituída por uma nova era de domínio baseado em IA. Isso não é abstração geopolítica: é uma empresa que já opera dentro do seu governo dizendo, publicamente, para onde quer levar o mundo.

A pergunta que fica é: onde está sua mente nessa equação? O manifesto quer que você se sinta pequeno e amedrontado — porque gente com medo terceiriza decisões. A clareza mental começa exatamente por reconhecer quando estão tentando pensar por você. E é exatamente isso que está acontecendo aqui.

Um lembrete

Se este tema desperta ansiedade, raiva ou uma sensação difusa de impotência, saiba que isso não é fraqueza — é lucidez. Como terapeuta, recebo frequentemente pessoas que chegam ao consultório intoxicadas pelo noticiário, sem conseguir nomear exatamente o que as aflige. Muitas vezes, o que pesa não é um evento específico, mas a percepção — correta — de que há forças muito maiores operando sobre nossas vidas sem nosso consentimento.

Reconhecer isso é o primeiro passo. O segundo é lembrar que clareza mental é uma prática, não um estado passivo. Assim como um corpo saudável se constrói com disciplina diária, a mente lúcida se cultiva com consumo consciente: escolher com vigilância o que você lê, o que você assiste, o que você deixa entrar.

Se precisar de ajuda para processar o peso do mundo sem ser esmagado por ele, estou aqui.

Conclusão: a verdadeira arrogância é achar que não há escolha

O manifesto da Palantir foi chamado de arrogante, assustador e perigoso. E é. Mas não pelo tom — pelo conteúdo. A arrogância não está na linguagem grandiosa; está na pretensão de que uma empresa privada pode definir o destino das nações. O medo não vem do que está escrito; vem do fato de que essa empresa já tem os contratos, os dados e as armas para transformar palavras em realidade. O perigo não está nos 22 pontos; está no que eles representam: a rendição à ideia de que o conflito é inevitável, de que a força é a única linguagem, de que quem constrói as armas decide a moral da história.

Mas a verdade é que o cinismo é uma profecia autorrealizável. Se você acredita que não há alternativa à guerra, você constrói armas. Se você constrói armas, você cria as condições para a guerra. Se a guerra chega, você diz: “eu avisei”.

Sair desse ciclo não exige ingenuidade — exige coragem. A coragem de perguntar se o mapa que estão nos vendendo é mesmo o território. A coragem de não tratar a compaixão como fraqueza nem a força bruta como virtude. A coragem de olhar para 22 pontos escritos por uma empresa de armas e reconhecer: isso não é debate. É roteiro.

A pergunta não é se vamos ler esse roteiro. A pergunta é se vamos deixar que ele nos defina.


🧘 Vitor Caruso Junior
Mestre Zen, terapeuta, maratonista, economista USP e ex-diretor RH +16 livros sobre saúde mental e relacionamentos, o gestor de performance com saúde.
MENTE ZEN. CORPO SÃO. CONSCIÊNCIA LIVRE.

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✓ Mestre Zen, ordenado pessoalmente por Thich Nhat Hanh em 2011 — recebeu transmissões especiais do Dalai Lama
✓ Terapeuta — Psicologia Analítica Junguiana e Programação Neurolinguística (PNL) pela University of California, Santa Cruz
✓ Membro da Associação Internacional de Yogaterapia, autorizado por Georg Feuerstein
✓ Aluno e biógrafo oficial do Professor Hermógenes, maior nome da Yogaterapia no Brasil
✓ Professor certificado de Ashtanga Yoga por Lino Miele, único discípulo autorizado por Pattabhi Jois a documentar o método
✓ Maratonista e pós-graduado em Nutrição Esportiva
✓ Economista pela USP, com especialização em Business pela University of Miami
✓ Ex-Diretor de Recursos Humanos de multinacional e consultor de RH para empresas de porte global
✓ Autor de mais de 16 livros, incluindo Relacionamentos em Plena Paz (prefácio da neta de Gandhi) e Ciência da Excelência


Referências

[1]: Higgins, Eliot. Post no Bluesky, abril 2026. Citado em: Business Insider, “Read Palantir’s 22-Point Manifesto Generating Buzz”, 20 abr. 2026. https://www.businessinsider.com/palantir-manifesto-alex-karp-technological-republic-summary-2026-4

[2]: Down, Aisha; Booth, Robert. “Palantir manifesto described as ‘ramblings of a supervillain’ amid UK contract fears”. The Guardian, 21 abr. 2026. https://www.theguardian.com/technology/2026/apr/21/palantir-manifesto-uk-contract-fears-mps

[3]: Coeckelbergh, Mark. “Palantir’s manifesto: Technofascism in plain sight”. Medium, abr. 2026. https://coeckelbergh.medium.com/palantirs-manifesto-technofascism-in-plain-sight-c160ca377e9a

[4]: Speakman Cordall, Simon. “Technofacism? Why Palantir’s pro-West ‘manifesto’ has critics alarmed”. Al Jazeera, 21 abr. 2026. https://www.aljazeera.com/news/2026/4/21/technofacism-why-palantirs-pro-west-manifesto-has-critics-alarmed

[5]: Vallance, Chris; Cress, Laura. “Palantir under fire for X ‘manifesto’ from co-founder Alex Karp”. BBC News, 25 abr. 2026. https://www.bbc.com/news/articles/c4gjkj7975po

[6]: Spiers, Elizabeth. “Palantir’s Manifesto Promises a Dystopian Future”. The Nation / ElizabethSpiers.com, 24 abr. 2026. https://www.elizabethspiers.com/palantirs-manifesto-promises-a-dystopian-future/

[7]: Moynihan, Donald. “Power without accountability: The Palantir manifesto”. Substack, abr. 2026. https://donmoynihan.substack.com/p/palantir-wants-power-without-accountability