Obstáculos e Oportunidade de Crescimento

Texto de 24/10/2007


Superar obstáculos, transformar adversidades em situações de crescimento.
Diz o Professor Hermógens, se você sofre, parabéns.
O que ele quer dizer?
Está aí uma oportunidade para crescimento.
Eu, Thiago, neto do Professor Hermógenes, e o Professor Hermógenes, estivemos em Balneário Camboriú, esta última semana, a convite do espaço Yoga Spanda, hoje sob coordenação da professora Ro Pacheco, que ministra aulas de yoga a aproximadamente 20 anos.
Entre seus vários alunos que se destacam na região, 2 primos, que já administram seu próprio espaço, Prana & Yoga, seus nomes, Vinícius e Figue, 35 e 34 anos respectivamente.
Além de primos, são parceiros especiais, e se completam de forma única, não só no comportamento e nas conversas, mas também no dia-a-dia, uma vez que Figue tem seqüelas de um acidente automobilístico, e não enxerga.
Esta entrevista-conversa ocorreu em um adorável almoço vegetariano.


Figue, como o yoga surgiu pra você?
F- Através do esporte, tinha necessidade, eu fiquei muito parado depois do acidente.
Era um surfista quase profissional. Depois do acidente, fiquei quase três anos em casa.
O Vini (Viníciu) me levou pra Jiu-jutsu, e escalar montanha.
Senti a necessidade de melhorar respiração e concentração.
Na época, o Vinícius era advogado e tinha um namoro sério.
Como vocês conheceram-se?
F- Desde nascimento, somos primo-irmãos.
A mãe do Vinícius é irmã do pai do Figue.
E este acidente de carro?
F- O acidente de carro foi em Camboriú quanto tinha 16 anos, só machucou os olhos, mais nada. Foi um ensinamento transformador, como ensinado pelo professor Hermógenes.
O acidente que me despertou.
Como você iniciou sua prática?
F- Iniciei a prática com a Rô Pacheco, com paciência.
Comecei a conhecer, porque eu sofro tanto.
Mais que a prática, as escrituras. Depois, procurei aprofundar mais, fiz curso na Montanha Encatanda, e com Pedro (Kupfer).
Como é estudar todas as coisas do yoga, sem poder ler?
F- Como os antigos yogues, escutando.
Salvo dentro da minha mente.
Ouvindo e prestando atenção.
Decorar o nome dos ásanas parecia meio difícil.
Parece que eu não ia decorar nada.
Como eram as aulas que você recebia?
F- Aula em grupo. A Rô ia descrevendo os ásanas.
Depois na primeira palavra, eu já sabia.
A descrição do ásana é muito importante. Ouvir para depois fazer, é mais forte quando monta-se ouvindo.
Por praticar o Ashtanga Vinyasa, a repetição da mesma sequência ajudava.
Exercício da atenção da ação, se distrair, você perde a seqüência.
E o Vinícius?
F- Via a necessidade do Vinícius de equilíbrio, pois ele era muito Pitta.
Fazia capoeira.

Como foi Vinícius?
V- Tive uma resistência, demorou um tempo.
Estava com minha vida, no escritório.
Chegava no escritório, me sentia desconfortável.
Fisionomia carrancuda, fechada.
Perguntei-me se queria essa vida.
Na primeira prática, já senti uma diferença.
Um amigo que foi junto, não seguiu, tivemos caminhos diferentes.
Tenho a certeza quer foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.
Sou muito agradecido ao Figue.
A gente fez os cursos de formação juntos, como parceiros.
Mesmo depois de ter feito os cursos, a Rô e o Cezar abriram portas para nossas vivências.
Aconteceu a partir daí, uma certeza muito grande, que era esse o caminho adequado de certeza e construção.
O espaço deles (o Yoga Spanda) solidificou esta certeza.
Em um ano eu cancelei a OAB.
Em seguida, saí do Yoga Spanda, e no mesmo dia encontrei a Laura Packer, ela me acalmou, me deu certeza.
As coisas clarearam, surgiu a idéia de fazer a escola na casa do Figue.
Acreditamos de um “dedo” maior em cima disto.
Com várias pessoas, família, diferentes papéis para a construção do Prana & Yoga.
Em especial ao pai e mãe do Figue, que deram uma força muito especial a este encontro.
Em momentos como a visita do Prof. Hermógenes, temos a certeza de como tudo isto foi importante, de como sustentar o yoga é importante.
Poder compartilhar algo que fez tanta diferença em nossa vida, é talvez o mais importante.
O quanto o yoga é generoso e carinhoso. Yoga é um carinho de Deus para a humanidade que sofre tanto. Gosto muito desta frase do Prof. Hermógenes.

E o Figue encerra a entrevista com a frese: Que as pessoas levem todos os sinais, de compaixão, de paciência, de amor, porque através destes gestos e atitudes a humanidade vai estar livre do sofrimento.

Para finalizar, o Professor Hermógenes quis deixar sua marca nesta entrevista, e encerrou nossa conversa nos ensinando: “Felicidade não compartilhada, ou é falsa, ou não é felicidade.”

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Budismo: Uma Introdução às 5 Escolas Filosóficas e ao Caminho do Meio

Texto de 08/10/2007

Ao estudar com sua Santidade o Dalai Lama, não percebi a grandeza e importância da transmissão do texto que estava recebendo.
O Grande Tratado do Caminho da Iluminação, de Tsongkapha, é um dos principais textos da filosofia budista tibetana. Tsongkapha é uma das figuras mais signifativas da linhagem Gelupa do Budismo Tibetano, a qual pertence o Dalai Lama.
Estudamos por 15 dias, durante todo o dia, das 09 às 16 horas, uma raridade.
O texto abrange o estudo de todos as caminhos do ensinamento budista, tomando como base a estrutura de Atisha, guru indiano, que coloca os ensinamentos em ordem para melhor entendimento, e a dissolução de qualquer perspectiva sectarista ou discriminatória quanto à qualquer tipo de prática espiritual.
Apresenta os aspectos dos ensinamentos do Buda através de Sila, Dhyana e Prajna, ou seja, ética de conduta, Meditação e Sabedoria.
Além de trabalhar de forma profunda o estudo das 5 escolas filosóficas do Budismo, conforme ensinado pelos tibetanos, estruturada de uma maneira entender o ponto de vista de cada escola, de acordo com o evoluir de nossa prática pessoal.

Pode-se dizer que a classificação seria de 4 escolas, já que as duas últimas são classificadas como Madhyamika (Caminho do Meio), porém a diferença entre elas é significativa, pois uma é baseada no silogismo (Svatantrika), enquanto que a outra, baseia-se no reductio ad absurdum, isto é, através de um estruturado questionamento de conseqüências. (Prasangika).

Segundo Sua Santidade: “Estudar as doutrinas destas escolas ajuda a evitar que se fique paralisado no que é apenas um entendimento parcial da verdadeira natureza da vacuidade e nos proporciona maior apreço pela profundidade do ponto de vista mais sutil.”

Vale dizer que o Dalai Lama ministra ensinamentos e conferências a grandes públicos, e além da função de líder espiritual, acumula tarefas de chefe de estado, portanto, é obvio que a relação entre Sua Santidade e muitos de seus ouvintes não é a relação estreita de guru-aluno. Quando da sua última visita ao Brasil, em 2006, em reunião com os organizadores de sua visita, quando perguntado sobre se poderíamos considerá-lo nosso mestre, ele respondeu que sim, desde que verificássemos se vemos nele estas qualidades.

Confesso a vocês que muitos dizem ter estudado com o Dalai Lama, mas poucos levam a sério suas palavras, e mais, realmente se aprofundam nos ensinamentos por eles transmitidos. Já presenciei vários importantes lamas se posicionarem ao lado do Dalai Lama, mas disseminarem ensinamentos bem contraditórios aos por ele propagado. Assim, não há um critério perfeito para avaliar o quanto o ensinamento de Sua Santidade foi assimilado, a não ser a própria dedicação, estudo e prática daquele que recebe.
Neste texto, apresento uma rápida introdução a estas 5 escolas, que preparei para os estudantes estrangeiros em Dharamsala, quando dos ensinamentos, como forma de acompanhar o que Sua Santidade nos ensinava. Fiz com base em publicação de Yangsi Rinpoche, aluno de Lama Zopa Rinpoche.

Escola Vaibashika

Aceita a existência inerente (fenômenos).
Não aceita a existência inerente do self.
Partículas de átomos e a consciência são a realidade última.

Escola Sautantrika

Aceita a existência inerente (fenômenos).
Não aceita a existência inerente do self.
Não aceita a possibilidade de uma consciência sem duração.
A consciência é um contínuo.
Os fenômenos compostos, por causas e condição, são a realidade última.

Escola Chittamatra (Mente-Apenas)

Todos os fenômenos são realidades convencionais.
Nega a realidade última dos objetos externos da escola anterior.
Existe uma consciência fundamental, chama de self, que é neutra por natureza, e funciona ininterruptamente até o nirvana.
As coisas existem devido aos seus registros na nossa consciência.
O estabelecer dos fenômenos é a realidade última, ou seja, assim sendo, a vacuidade tem existência intrínseca.

Escola Svatantrika-Madhyamika

Nenhuma escola Madhyamika aceita a real existência do fenômeno, mesmo no nível convencional.
Porém, a Escola Svatantrika aceita a existência do fenômeno, pelas suas próprias características. (Pontos de vista diferem entre Bhavaviveka, Kamalashila e Shantarakshita, outros mestres desta escola)
Bhavaviveka é seu principal filósofo, que comenta a partir de Nagarjuna.
Bhavaviveka afirma a possibilidade de fenômenos sem registros na consciência, opondo-se à Chittamatra.
Rejeita a real existência da vacuidade.
Não aceita a idéia de registros, mas aceita a idéia de uma consciência fundamental que registra.
A Escola aceita a visão de realidade última em um fenômeno que exista pelas suas próprias características, mas não aceitam fenômenos existentes com base em um único modo de existência.
Como é isto? Eles aceitam que o fenômeno surge no encontro de sujeito e objeto. Isto é contrário a existência do objeto pelo seu próprio modo.
Quando um fenômeno é investigado em busca de sua realidade última, a algo a ser encontrado.
Não acredita em fenômenos com bases apenas na mente, pois acreditam ser impossível a aplicação de causa e efeito.
Em resumo, aceitam a existência inerente, ou seja, o objeto pode ser encontrado quando buscado sua realidade última, mas ele não é a realidade última, pois não pode existir por seu próprio modo de existência.

Escola Prasangika-Madhyamika

Quando um fenômeno é investigado em busca de sua realidade última, nada se encontra.
Dá-se importância a uma correta compreensão de vacuidade.
Procura-se primeiro reconhecer a vacuidade do sujeito, depois do objeto.
Isto não significa que o fenômeno não exista, apenas não possui realidade última, por exemplo, quando analisa-se a noção de EU, e se vê que ela é composta de agregados.
A Escola Prasangika fala em existência convencional.
O que não tem existência inerente, não pode ser dito que não existe.
Segundo Nagarjuna, para que um fenômeno tivesse existência inerente, deveria: não ser afetado por causas e condições, não pode ser dependente de outro fator, não poderia se transformar em outra coisa, mesmo que temporariamente.
Portanto, não há fenômeno que tenha existência inerente.
Os principais filósofos da escola são Buddhapalita e Chandrakirti, que comentam também a partir de Nagarjuna.

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Paz e Não-Violência nas Relações

Texto 08/10/2007

Este é um tema em que recebi muita procura para falar a respeito, recentemente.

Achamos que a 26a. Semana Gandhi, agora somada à oficialização, pela ONU, do Dia 02 de Outubro como o Dia Internacional da Não-Violência, fosse um momento adequado para tratar disto.
Sugiro três obras que nos ajudam a falar um pouquinho das relações, e deste tema.
Não são obras específicas do tema Não-Violência, mas trazem um conteúdo significativo e valoroso para que possamos nos aprofundar no assunto, são elas:

  • A arte de Lidar com a Raiva – Dalai Lama

  • Saber Cuidar (Ética do Humano – Compaixão pela Terra) – Leonardo Boff

  • Aprendendo a Lidar com a Raiva – Thich Nhat Hanh

Inicialmente, vale uma reflexão sobre a diferença sobre a noção de paz, e não-violência. Muitos acham o termo não-violência de conotação negativa, e o preferem substituir pelo terma paz. São coisas diferentes. A origem do termo não-violência, vem de ahimsa (sânscrito) e significa um profundo compromisso de não compactuar com a violência. Gandhi é o grande exemplo desta busca, uma vida toda na tentativa de cumprir da melhor forma este compromisso, que ele mesmo apresentava como compromisso com a Verdade, com V maiúsculo.

Podemos destacar diferentes metodologias para lidarmos melhor com nossas reações de medo e raiva, para termos uma atitude não-violenta.

Uma delas, seria analisarmos a composição das emoções que conduzem o comportamento do agressor. O Dalai Lama, neste caso, nos cita o texto de Shantideva, onde este nos mostra que não desenvolvemos raiva pelo bastão que nos agride, pois o bastão é apenas o instrumento da agressão. Assim, quando somos agredidos por alguém, podemos ver que esta pessoa age desta forma por ser instrumento de emoções perturbadora. Esta visão requer prática para ser assimilada, mas é muito lógica.

Leonardo Boff mostra um caminho de não-violência nos falando de Jesus como exemplo de cuidado, e a importância de que temos que desenvolver esta atitude de cuidar. Cuidado este demonstrado por Jesus, pelos pobres, famintos, discriminados e doentes.

Já, Thich Nhat Hanh, mestre zen budista vietnamita, que escreve de forma tão bela sobre o tema, nos ensina a cozinhar nossas emoções de raiva e medo, como batata quente, até amolecê-las, e para isto, usar o fogo e a panela da plena atenção, meditar de forma atenta e cuidadosa, sentado ou caminhando, mas observando e minando a intensidade de nossas sementes de violência.

Uma bela forma de perceber a importância de não se compactuar com a violência é o poema de Bertold Brech (1898-1956), chamado É PRECISO AGIR:

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

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Hermógenes, Yoga e Alegria

Minha experiência com supostos mestres de tradições me trazia uma vivência com pessoas um pouco distantes, de determinada pose, colocando-se em uma posição ligeiramente superior aos seus alunos.
Confesso que quando conheci Hermógenes, a humildade, a gentileza e a amorosidade latentes em seu comportamento me impressionaram, ao mesmo tempo em que causaram estranheza.
Outro aspecto especial era o bom humor, a facilidade em contar piadas, e sempre que me encontrava tenso ou preocupado, ele aparecia com uma piada nova.
Quando conheci o Dalai Lama, anos depois, vi também estes mesmos atributos de Hermógenes.
A alegria como estado de realização espiritual.
No yoga, isto é levado tão a sério, que é considerada uma das disciplinas, um dos Nyamas, chamado Santosha, contentamento, estar contente, satisfeito, alegrar-se com o que se tem.
No vídeo em anexo, uma pequena demonstração disto.

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Um Yogue Indiano chamado Buda Shakyamuni

DSC03887+modify - Um Yogue Indiano chamado Buda ShakyamuniTexto de 13/08/2007

Meu primeiro contato, foi através da capa de seu livro, e não foi tão empolgante.

Seu livro já era um best-seller, muitos estavam lendo.

Eu estava preocupado com meu câncer, isto mesmo, um câncer.

Precisava de ferramentas para ajudar no processo de cura.

Alguns insistiram, leia, que você vai gostar.

Até que um amigo me deu o livro de presente, com dedicatória, pedindo para que eu o lesse.

Era a Arte da Felicidade, com o Dalai Lama na capa.

Fiquei impressionado com a coerência da argumentação, decidi me aprofundar no assunto.

Tornei-me um estudioso do Budismo Tibetano.

Visitei vários centros de prática, em São Paulo e no Paraná, conheci diferentes tipos de meditação, mantras, monges e lamas (professores).

Anos depois, em 2005, conheci uma monja, Tenzin Namdrol, que morava em Dharamsala, a terra do Dalai Lama, e preparou toda a minha viagem. Estadia, local de prática com o melhor professor de yoga, e o mais especial, o período de ensinamentos mais profundos com Sua Santidade, o XIV Dalai Lama.

Confesso que estava ansioso de conhecer a pessoa, que sem saber, havia me ajudado tanto no processo de cura do meu câncer.

Foram 15 dias de estudo, das 09 às 16 horas, onde ele abordou um dos principais tratados filosóficos do Budismo Tibetano, O Grande Tratado do Caminho da Iluminação, de Tsongkapha. Três volumes de aproximadamente 400 páginas cada, lidos e comentados integralmente. Até hoje, penso que não sei dimensionar a preciosidade do presente recebido. Quando faço a revisão deste texto, tenho que tirar dias de retiro, só para a leitura.

Ao final, na despedida, fui tomado por forte emoção, ao lado da monja Tenzin Namdrol, que havia organizado quase tudo (o monge Ngawang Temphel, também ajudou muito) para eu viver aquele momento. Choramos muito quando Sua Santidade nos lembrou da importância de desenvolvermos uma mente compassiva.

Agora, em 2007, dois anos depois, eu voltava para Dharamsala, para encontrar o professor que havia passado pelo Brasil em abril de 2006.

Chegamos na véspera do seu aniversário de 72 anos, e depois, teríamos 7 dias de ensinamentos, sobre o Voto de Bodisatva na perspectiva de Tsongkapha.

06 de Julho de 2007, o Dalai Lama celebrava seu 72o. aniversario, como todo ano, a comunidade tibetana em Dharamsala se concentrava desde cedo, próximo ao templo de Sua Santidade.

As celebrações começariam 09 horas, mas por volta das 08 horas já era impossível encontrar algum lugar que possibilitasse a visão da cadeira de Sua Santidade.

Para os ensinamentos, haviam na cidade em torno de 10 brasileiros, 6 de nosso grupo original, 2 que se juntaram a nós por lá, e mais dois bons amigos que sempre estavam conosco nas restaurantes da cidade. Fora este grupo de visitantes, tínhamos o carinho da Márcia, ou melhor, Ani (monja) Gyurme, seu nome de monja, brasileira, carioca, que vive por lá, e pertence a linhagem Kagyu, mas seria mais preciso dizer, fã do Karmapa, um dos grandes mestres desta linhagem.

Quando Sua Santidade surgiu, anunciado pelo silêncio do público, e o tocar das gaitas escocesas (foles), uma emoção tomou conta de todos. Ele, como sempre, com sorriso nos lábios, simpatia nos gestos ao cumprimentar a todos que via. Richard Gere se fez presente, ou alguém muito parecido, mas ali, parecia uma estrela menor, pois poucos olhares procuravam outra pessoa que não fosse Tenzin Gyatso, Sua Santidade, o 14o. Dalai Lama, Prêmio Nobel da Paz de 1989.

O Dalai Lama surge acompanhado do 17o. Karmapa, o jovem de 22 anos, que sempre que aparece nestas celebrações, destaca-se por sua forte presença.

Discursos, músicas e danças típicas se seguem, como todo ano, celebrando a data do filho mais querido das invadidas terras tibetanas, o pais que era considerado o teto do mundo, e eternizado por vários filmes, entre eles Kundun, ou 7 anos no Tibet.

No dia seguinte iniciou-se a semana de ensinamentos. Todas as manhãs, ele comentava textos de Tsongkapha e Atisha, e no período da tarde, grupos de discussão se reuniam nas línguas oficiais do evento, ou seja, inglês, chinês e coreano. Coordenei o grupo de estudos do Brasil, onde tivemos maravilhosos encontros, e aprofundamos todos os dias as palavras de Tenzin Gyatso. Era uma alegria receber em nosso hotel, alguns brasileiros que tinham que atravessar a cidade, só para escutar a revisão em português.

Os ensinamentos eram em torno da importância de buscarmos nossa realização espiritual, não só pela correção de nossa conduta, ou a prática da meditação, mas principalmente, pelo estudo da natureza da realidade, uma percepção mais acurada dos fenômenos de nossa vida, e a análise destas percepções. Para isto, muita filosofia, muita metafisica, explorar o conceito de vacuidade e estudo, muito estudo. O que Sua Santidade já havia salientado como fundamental em sua última visita ao Brasil, em 2006.

No último dia, muitos de nosso grupo foram às lagrimas, o Dalai Lama falou sobre a importância da Bodhichitta, a mente da compaixão, que deve ser praticada para abraçar a todos, para receber a todos, para acolher a todos. Depois de tão belas explicações, Sua Santidade convidou a todos que quisessem tomar o voto de Bodisatva, poderiam tomar este voto com ele, tendo ele como guru. O que isto significa? Significa prometer ao Dalai Lama, dedicar sua vida a ajudar aos outros a superarem seu sofrimentos, e atingir a realização espiritual. Assim como fez Ananda, o assistente mais próximo do Buda Shakyamuni.

Antes de deixarmos Dharamsala, a querida monja Ani Gyurme e seu professor, Lama Norden, conseguiram uma entrevista pessoal com o Karmapa, ou melhor, o grupo de brasileiros seria recebido por uma das figuras mais importantes do Tibet, para perguntas pessoais. Sérgio, um dos participantes do nosso grupo, professor universitário na Bahia, fez a pergunta na sua área de atuação, meio-ambiente.

O jovem mestre de 22 anos, depois de minutos de reflexão, demonstrou vários sinais de preocupação com o que estamos fazendo com o planeta, e nos aconselhou: “Devemos nos organizar, não há tempo a perder, estamos à beira de um abismo.” Sérgio, especialista e professor nesta área ficou impressionado com o grau de consciência do mestre.

A outra pergunta deveria ser feita por mim, como havia solicitado bençãos nupciais, minha pergunta concentrou-se nas questões relacionadas à felicidade de um casal. Depois de nos abençoar (eu e Liliane), e dizer que iria nos colocar em sua preces, aconselhou: “Aproveitem a vida, são poucos os momentos de verdadeira felicidade!”

Estávamos todos emocionados pelos importantes momentos, partimos com o coração já cheio de saudades de Dharamsala.

Depois de longas viagens e outros atrações turísticas típicas, com aventuras que a Índia proporciona de forma quase única, fomos à Varanasi, cidade sagrada de Shiva. Esta cidade, comum para os que fazem sua viagem à Índia com enfoque no yoga, ou hinduísmo, tem uma atração especial para os budistas. Ao lado de Varanasi (10Km), está Sarnath, local do primeiro sermão do Buda, onde ele encontrou seus antigos cinco companheiros de práticas de yoga e ascetismo. Lá ele ensinou às Quatro Nobres Verdades (a existência do sofrimento, suas causas, que existe a possibilidade de cessar o sofrimento e o caminho para isto). No local, na Stupa de Dhamek, que marca o local exato do primeiro sermão, recitamos mantras, fazendo a circumbulação da Stuapa, em seguida a leitura do mesmo, em grupo, e meditamos em silêncio. Muito significativo, muito emocionante.

Ao lado do parque, o museu arqueológico de Sarnath nos apresenta peças de beleza e antiquidade impressionante, principalmente um Buda do Séc. V, e os leões e roda do pilar de Ashoka (símbolos da Índia), que estão de maneira impressionante intactos, e datam do Séc. III a.C.

Estudar a existência do sofrimento, e no dia seguinte visitar as cerimônias religiosas hindus na beira do Ganges, nos faz entender ainda mais os caminhos trilhados pelo Buda, e torna nossa busca espiritual ainda mais profunda.

Em seguida, viajamos para Bodhigaya, local de iluminação do Buda, no primeiro dia visitamos os principais locais de ensinamento do Buda, Pico dos Abutres, Universidade de Nalanda e Parque dos Bambus. Todos marcantes, mas o Pico dos Abutres, local de ensinamento dos dois mais importantes sutras budistas, o Sutra do Lótus, e o Sutra do Coração, é de arrepiar. O local está em um parque, com natureza esplendorosa bem conservada, meditar por lá, é estar muito próximo da vivência que o Buda teve por 6 anos. (Ele passou seis monções, período das chuvas que utilizava para retiros)

No último dia em Bodhigaya, conhecemos o local da iluminação de Buda Shakyamuni, meditamos ali, embaixo da árvore Bodhi (ficus religiosa), monges e praticantes de vários lugares do mundo, ali se encontram, no ponto principal de qualquer peregrinação budista.

Impossível continuar sendo o mesmo, tantas expressões, de diferentes países, na mesma fé dos ensinamentos do yogue indiano que ensinou o caminho para o nirvana, um estado paz e tranqüilidade, além das pertubações da mente, um estado que poderia ser definido como “yoga chitta vritti nirodaha”.

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Um Economista Brasileiro entre Monges Tibetanos

aulamonges - Um Economista Brasileiro entre Monges TibetanosTexto de 29/05/2006

A viagem já era muita mais do que o esperado, foram mais de 14 dias com o Dalai Lama, ensinamentos sobre filosofia budista de grande complexidade, mas ao mesmo tempo transformadores. As aulas de yoga, com o famoso professor de Dharamsala, Vijay Amar, foram puxadas, mas muito proveitosas. Agora, era hora da próxima novidade: Aula de Economia para os monges.

A idéia surgiu depois que eu escrevi o livro, em parceria com o Lama Padma Samten, chamado: O Lama e o Economista. O monge brasileiro, Gabriel Ngawang Temphel soube do livro, e também do desejo do fundador do mosteiro em que estuda, Dzongsar Khyentse Rinpoche, de trazer cientistas ocidentais para ensinar aos monges, cuja formação de 10 anos é totalmente estruturada na filosofia budista.

Ao saber de minha visita à Índia, o monge Gabriel propôs ao abade do mosteiro um curso de Introdução à Economia, o que foi aceito pelo mosteiro, e por mim também, como um desafio pedagógico.

O Monastério

O Dzongsar Chokyi Lodroe College of Dialetcs, fica em uma colônia tibetana, no norte da Índia, chamada Bir. Formado por um belíssimo templo, mais o conjunto residencial que abriga 600 monges (vagas esgotadas), e pretensão de ampliação para 1.000 no futuro. Além do edifício do restaurante e outro, de atividades especiais.

São 500 monges que, se tiverem sucesso, vão passar por uma formação de 10 anos, de profundo estudo das principais escolas do pensamento budista, estruturados nos esforço de horas e horas de aulas, memorizações e debates.

A rotina do mosteiro inicia às 05 horas da manhã, terminando 22 horas, todos os dias, somente com o domingo de folga.

O Fundador

Dzongsar Khyentse Rinpoche é considerado um grande mestre do Budismo Tibetano, a reencarnação de Jamyang Khyentse Chokyi Lodro (1893-1959). Uma de suas principais características é a forma poderosa e moderna que consegue modernizar os ensinamentos do Buda, principalmente para o público ocidental. Auxiliou Bertolucci na direção do filme “O Pequeno Buda”, onde faz uma pontinha no final do filme, além de ter dirigido o filme “A Copa”, onde mostra a importância do futebol brasileiro (que é real), na vida dos monges tibetanos.

Preparação das aulas

A idéia inicial era que os monges tivessem um curso de introdução à Economia, mas só isto não era suficiente para o bom preparo das aulas. Uma metodologia tradicional de ensino, desmembrando as teorias mercantilistas, Adam Smith, David Ricardo, e outros, não seria suficiente. Era importante definir exatamente quem eram os alunos do curso. Isto foi definido uma semana antes de minha chegada, seriam os alunos de penúltimo e último ano da formação, isto é nono e décimo ano. Em outras palavras, os melhores debatedores. Por que debatedores? A estrutura de ensino não se fundamenta nas ciências ocidentais, portanto, eles possuem conhecimentos básicos de matemática, biologia e geografia, mas em compensação, em lógica, e fundamentação filosófica, eles são perfeitos.

Optei por iniciar as aulas estruturando os argumentos em apresentações de gráficos, pois o raciocínio matemático por detrás dos gráficos daria a sustentação lógica para que eu não fosse derrubado com o constante questionamento. Porém, notou-se que quando eu relacionava a história econômica, com um paralelo da história tibetana, o nível de interesse saltava em qualidade, e assim foi feito, portanto, por si só, o curso se transformou, e focamos muito mais em uma História do Pensamento Econômico. Além disto, usamos jogos, atividades em grupos e alguns desafios, para dinamizar a aula. Exercícios de matemática serviram como base para estruturar os jogos e fundamentar as idéias abordadas. É bom ressaltar que as razões econômicas que justificaram a invasão chinesa, do Tibet, também foi um assunto de muito interesse.

Futebol

Eram inevitáveis as perguntas sobre futebol. Eles gostam muito do futebol brasileiro. Entre as infrações que tem penalidade no monastério, a pior de todas, é dormir fora. Pois isto significa a possibilidade de relacionamentos amorosos. A pena para uma noite fora do monastério é de 1 ano de expulsão. No contexto, esta pena é muito dura, pois eles não têm muitas opções do que fazer neste período, além de perder, o teto e oamida que o mosteiro oferece.

Enfim, quando o Brasil joga, já aconteceu de alguém se arriscar. Pular o muro de madrugada para ver nossos craques.

Na final das copa das Confederações, foi feita uma requisição especial ao abade, para que o jogo contra a Argentina pudesse ser visto. Pedido feito, desejo concedido. Perguntei o motivo de tanto amor pelo futebol brasileiro, e eles me responderam: Vocês são os melhores e não precisam usar a violência como os outros.

Final do Curso

Ao final, foi feito um debate entre os monges sobre o benefício que o conhecimento de economia poderia gerar, e o benefício que o dharma (ensinamento) do Buda poderia nos dar. Foi lindo, como eles tão rapidamente utilizavam os argumentos econômicos para estruturar a lógica de pensamento.

Eles utilizaram a idéia de maximização de resultados, eficiência e desenvolvimento econômico como geração de bem-estar com bastante propriedade.

Mas, concluíram, não é pela Economia que seremos seres iluminados!

O Díálogo entre Economia e Budismo

A economia hoje se depara com novos modelos, e problemas, onda a escassez de recursos, nos leva a pensar em prioridades e ética, mais do que uma simples busca de acumulação do capital. Neste ponto, o livro que escrevi com Lama Padma Samten, “O Lama e o Economista”, mas sobretudo, o livro de Sua Santidade, o Dalai Lama, “Compaixão ou Competição” nos apontam a necessidade de unirmos a competição ao altruísmo.

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Encontro com Desikachar, filho de Krishnamacharya

DSC00984 - Encontro com Desikachar, filho de Krishnamacharya

Texto de 18/06/2005

A entrevista ocorreu no último dia da passagem da família de Desikachar no Brasil. Eles visitavam nosso país, como parte de uma tour mundial onde eram apresentados os fundamentos do Yoga de Krishnamacharya.

E quem foi Krishnamacharya?

Segundo Georg Feuerstein, o mundialmente renomado autor e pesquisador sobre yoga, T. S. Krishnamacharya foi o maior expoente do Hatha-Yoga nos tempos modernos. Para outros, ele é conhecido por ser o mestre dos mestres, tendo orientado a prática de renomados outros mestres como Iyengar, Pattabhi Jois, Indra Devi e Krishnamurti.

Só por esta lista, já se pode imaginar que a Yoga não seria, o que é hoje, se não fosse Krishnamacharya.

No Brasil, a família coordenou este seminário de 23 a 26 de abril, estavam todos presentes. Desikachar, o filho de Krishnamacharya e sua esposa, filho, filha, nora e neta.

Era muito bonito presenciar aquela integração familiar em torno do Yoga.
Graças ao Jorge e Maria Nazaré, organizadores do evento, e responsáveis pelo Anjali Yoga de Porto Alegre, a equipe do Ciência Meditativa teve a oportunidade de gravar em vídeo, e fita de som, esta esclarecedora e rica entrevista.O diálogo ocorreu entre Vitor Caruso Jr., fundador do Ciência Meditativa, e Desikachar, que hoje trabalha na manutenção das raízes e ensinamentos de seu pai, dessa forma, preservando o que há de mais autêntico e verdadeiro na filosofia do Yoga.

V- Muito prazer?

D- Muito prazer. Você irá visitar o Dalai Lama, hein?

V- Sim, este ano em Dharamshala.

D- Eu estive me Dharamshala três vezes, encontrei o Dalai Lama. Ele é uma pessoa muito boa.

V- Primeiro, gostaria de agradecer por esta entrevista exclusiva….

D- Está bem, vá em frente, pergunte…- Desikachar interrompe gentilmente, para ir direto ao assunto.

V- Ok, a primeira pergunta é sobre fé. No livro da biografia de Krishnamacharya que o Sr. escreveu, disse que seu pai tinha muita fé me Narayana, e costumava rezar todos os dias, Gandhi tinha o mesmo tipo de dedicação, costumava rezar diariamente para Rama. O Sr. acha que a Fé é algo fundamental a seguir dentro do yoga?

D- Quando eu vi meu pai tornar saudável pessoas sem nenhum estudo formal da medicina, não só pessoas de nossa região, mas pessoas de todos os lugares do planeta, pessoas vinham para ver meu pai, porque tinham seus problemas, e com seus conhecimentos de yoga, ele tornava essas pessoas saudáveis.
Eu vi isto, esta é a minha fé!
Meu pai pôde tornar tantas pessoas saldáveis sem o uso de medicamentos, isto é muito especial no yoga. Foi assim que me transferi da engenharia para o yoga. Sinto muito lhe desapontar, eu não posso ver Deus, eu não vi Deus, eu vi o que meu fazia com o yoga, e é nisto que tenho fé.
Meu pai tinha total fé em Deus, mas eu sou diferente.
Meu pai utilizava a yoga como uma técnica para tornar as pessoas mais saudáveis, e agora, vejo o yoga ajudando e transformando tantas pessoas.
Esta é minha fé no yoga, e eu a tenho por causa de meu pai.
Jorge (Jorge Luis do Anjali Yoga), por exemplo, foi a Índia tantas vezes, e viu como utilizamos o yoga para ajudar as pessoas. Tenho fé no yoga, pois eu vi do que ele é capaz, e por isto tenho fé em Krishnamcharya, e por exemplo, quando fiz minha viagem ao Tibet, tive certeza que esta fé tomava conta de mim. E assim, milagres acontecem.

(Desickachar usa o termo heal, que foi traduzido como tornar-se saudável, e que poderia ser traduzido como curar, mas ele faz questão de utilizá-lo em um sentido mais amplo, do que o termo cure, que também pode ser traduzido como curar. Ele distingue o termo heal, como sendo de origem interna do indivíduo, quando quebramos a perna, e engessamos, e a capacidade do organismo de tornar-se saudável que faz com que a perna fique boa. O termo cure estaria mais relacionado a remédios, por exemplo.)

V- A segunda questão é sobre karma yoga, e o sentimento de compaixão ao praticar karma yoga. Você acredita que a prática de ajudar o outro, de desenvolver um coração compassivo, é uma forma de mensurar a evolução do praticante a caminho do Samadhi?

D- Karma yoga não é só uma prática, é também um serviço.
Meu filho, Kausthub se tornou um karma-yogue, ele contribui para muitas pessoas financeiramente, em todo o mundo, para que muitos tenham o benefício do yoga. Isto é Karma yoga, ajudar, servir a sociedade, sem se glorificar, por exemplo, dizendo, eu estou fazendo isto, eu estou fazendo aquilo. Este é o verdadeiro Karma yoga, ele nunca fala sobre isto, eu é que conto.

V- A terceira questão é sobre religião, parece haver uma relação próxima entre yoga e hinduísmo. Alguns professores no Brasil gostam de usar os símbolos da Índia, seus deuses, suas deidades. Mas algumas vezes, quando eles colocam estas figuras em suas escolas, eles têm problemas com pessoas de outras religiões, porque, por exemplo, alguns tipos de cristãos não gostam destes tipos de figura. Você acha que este tipo de comportamento não é benéfico para o yoga?

D- Yoga e religião hindu são coisas diferentes.
Na verdade, na escola do Vedanta Sutra, uma linha filosófica do hinduísmo, eles rejeitam o yoga, porque o yoga não insiste em Deus. Se você tem fé em Deus, OK. Se você não tem fé em Deus, OK também.
O yoga Sutra não fala em Deus como um criador, Ishva significa qualquer ser inteligente, uma pessoa mais sábia. O Yoga Sutra não diz, Deus criou o mundo, é por isto que a filosofia hindu rejeita a filosofia do yoga.
Infelizmente em Índia, alguns praticam a religião hindu, e associam isto com o yoga, pois é a sua crença pessoal.
Meu pai, quando falava com cristãos, ele nunca rezava para Narayana, quando meu pai falava com muçulmanos, ele costumava dizer Salamaleco Sala, ele tinha sua fé pessoal, mas a limitava para o seu quarto. Ele nunca propagava sua fé em Deus pessoal para o yoga. Ele ensinou hindus, cristãos, muçulmanos, centenas de pessoas.Ele ensinou o yoga de acordo com Patañjali.
Muitas outras pessoas, infelizmente, misturam hinduísmo com yoga, isto é uma mistura, muitas vezes feitas por ignorantes, ou fanáticos, mesmo algumas pessoas que conheço, que recitam poema a Shiva. Isto não tem nada haver com yoga.
A yoga de Patañjali é “clean”, não possui conexão com religiões. Isto é uma coisa muito triste sobre os professores hindus, pois eles confundem sua crença pessoal com yoga. Em relação a isto somos muito claros, quando você for a nossa instituição você verá, nós não temos nenhuma foto, ou símbolo. Apenas Patañjali. Nós não temos nem o OM. Porque a Ïndia é um grande país, e nós respeitamos todas as crenças. Mas os hindus têm o hábito de adicionar isto à prática, e impor isto aos outros. Este é um erro triste dos mestres hindus, e eu lamento muito.

V- A última questão, tem relação com os budistas, que praticam diretamente a meditação, sem uma prática de corpo preparatória. O que o Sr. pode dizer a respeito.

D- Nós temos um amigo, mestre Zen, na América. Uma pessoa muito boa, em Connecticut.

Hoje ele introduz o yoga como um dos fundamentos para a prática da meditação Zen.
Isto é feito porque, muitos anos atrás, 500 anos atrás, todos sentavam no chão, mas agora, sentamos apenas em cadeiras, até para ir ao banheiro. Por isto, se tentamos fazer as pessoas sentarem diretamente com as pernas cruzadas (em lótus, por exemplo), elas podem se machucarem. É por isto que ele diz, abram seu olhos, as posturas do yoga e as respirações, preparam para a meditação. É por isto que ele usa o yoga como preparação para a meditação budista.

V- Muito Obrigado.

D- Obrigado você, e se ver o Dalai Lama, dê meus cumprimentos a ele, ofereça um Katá em meu nome.

Ao levantar, ele tirou sua carteira do bolso, sacou todo o dinheiro que havia nela, e entregou a Vitor, dizendo: _Tome, isto é para sua viagem à Índia. Quando Vitor tento manifestar, dizendo que não precisava, deixou seu último ensinamento:_Isto é que é Karma Yoga, faça bom uso do dinheiro, e mande minhas lembranças ao Dalai Lama.

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Ciência e Meditação, a origem do Ciência Meditativa



Texto de 24/04/2007

Quando foi detectado meu câncer, assumi o compromisso pessoal de que o processo de cura seria exemplar. Faria todo o esforço para realizar os procedimentos de maneira que a minha vivência daquele processo pudesse servir de lição para muitos que tivessem que passar por experiências similares.

Quando você tem uma doença grave, surgem as mais diversas idéias de tratamento, das mais caras às mais baratas, das mais científicas às mais exóticas. Tive que adotar algum critério, pois caso contrário corria o risco de me perder no mar de possibilidades de tratamentos. O critério consistia em adotar em meu tratamento qualquer complemento à medicina convencional que estivesse sendo seriamente pesquisado em mais de uma universidade.

Vários elementos surgiram, ligados à alimentação, acupuntura, atividade física e outros, mas havia um que era unânime, em quase todas as universidades que pesquisei, havia algum trabalho sobre a meditação e casos de recuperação extraordinária. Isto despertou meu interesse, e foi reforçado por uma leitura sugerida a muitos pacientes com câncer, os livros do médico-cirurgião Dr. Bernie Siegel, que apresenta como os pacientes podem ser peça fundamental no processo de recuperação da saúde. Em seu livro, “Amor, Medicina e Milagres”, na p.189 ele afirma sobre a meditação: “Não conheço outra atividade isoladamente, que tanto contribua para melhorar a qualidade de vida”.

Com tantas evidências, comecei a pesquisar e aprofundar o tema meditação. A primeira grande referência científica está no início da década de 70, na Universidade de Harvard, com os estudos do Dr. Herbert Benson, que publicou o best-seller “A Resposta de Relaxamento” onde atesta os efeitos benéficos de 4 tipos de meditação: Transcedental, Yoga, Zen-Budismo e Budismo Tibetano. Neste trabalho você poderá encontrar muitas tabelas e estudos sobre os efeitos da meditação, principalmente sobre o sistema cardiovascular neste livro.

Procurei levantar estudos e textos sobre as quatro indicações, e por diversas razões e coincidências incríveis li “A Arte da Felicidade”, do Dalai Lama e Cuttler, que também possui uma abordagem psico-analítica bem científica. Anos depois o Dalai Lama se tornou meu guru pessoal (junto com o Prof. Hermógenes), mas o livro que mais apresenta dados impressionantes sobre a meditação é o “Como Lidar com as Emoções Destrutivas”, que trata de uma descrição de um seminário do “Mind and Life Institute”, onde cientistas apresentam incríveis, e inovadores resultados sobre o funcionamento e a capacidade do cérebro humano, através de testes feitos com um monge tibetano. Destacam-se os testes feitos com ressonância magnética funcional, feitos por Richard Davidson, e também os testes de Paul Ekman sobre a capacidade extraordinária do meditante de reconhecer expressões faciais.

Ainda na linha da psicoterapia, um livro de muito impacto em minha vida foi “O Câncer como Ponto de Mutação” do psicoterapeuta Lawrence LeShan, que trabalhou mais de 25 anos com pacientes de câncer, e sua principal terapia era o uso da meditação, nesta área também se destacam os livros de Mark Epstein, tais como “Partir-se sem Quebrar”.

Minhas pesquisas continuaram, e como procurava ter muito rigor durante meu tratamento, foi inevitável buscar referências também na neurociência, onde o impressionante trabalho de James Austin, chamado “Zen and The Brain” é um completo tratato neuro-anatômico da meditação, com muitas histórias zen. No Brasil, mais recentemente temos um trabalho similar chamado “Neurofisiologia da Meditação” de Marcelo Danucalov e Roberto Simões, que também muito colabora nesta área.

Neste levantamento de informações e dados, algumas coisas muito interessantes me chegaram, tais como:

A meditação comprovadamente auxilia em processos de ansiedade, depressão moderada, raiva e hostilidade, hipertensão, irregularidades cardíacas, dor crônica, tensão pré-menstrual, infertilidade, menopausa e doenças relacionadas ao estresse

O consumo de oxigênio do organismo durante profundos estados meditativos podem ser menores do que durante o sono

A meditação reduz a presença de ácido láctico no sangue, sintoma de estresse

Os meditantes se recuperam mais rápido de situações de profundo estresse

Os meditantes apresentam maior especificidade cortical, ou seja, atingem níveis mais profundos de atenção

Desde 1984, a meditação é indicada pelo Instituto de Saúde dos Estados Unidos, em preferência aos remédios, nos casos de hipertensão

A meditação diminuía a dependência de analgésicos em pacientes de dor crônica

Reduz náusea e vômito, principalmente nos três primeiros meses de gestação

O sono para pacientes com insônia é conseguido 4 vezes mais rápido para os que meditam

O prêmio nobel em neurofisiologia John Eccles atestou em pesquisa a maior especificidade da atenção em meditantes

Essas e muitas outras pesquisas, com suas fontes citadas, estão disponíveis no site www.cienciameditativa.com

Especificamente na área de yoga, não se deve deixar de citar os trabalhos do Prof. Hermógenes, principalmente “Yoga para Nervosos” e “Saúde Plena com Yogaterapia”, ambos são repletos de casos médicos, que apresentam incríveis recuperações de estado de saúde.

Para finalizar o artigo, termino de contar a minha história, depois de estudar tanto a meditação, tornei-me praticante e fanático por ela, tive uma cura extraordinária, em tempo recorde do câncer, e decidi mudar a minha vida para ensinar a meditação e ajudar as pessoas com a minha experiência. Hoje sou professor de meditação e todo esta história de doença, sofrimento e transformação está contada em meu livro “Com Qualquer Um de Nós”.

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Buda um yogue indiano

Dalai+Lama+Birthday+72 - Buda um yogue indianoTexto de 29/08/2007


Estivemos na Índia em Julho deste ano, 2007.

Um grupo de brasileiros, com o intuito de encontrar o Dalai Lama, e alguns caminhos do Buda.

Grupo pequeno, mas grandes objetivos de uma profunda busca pessoal.

7 dias de ensinamentos com o Dalai Lama.

Isto mesmo, Sua Santidade, o XIV Dalai Lama, Prêmio Nobel da Paz, emanação do Buda da Compaixão.

Os ensinamentos iniciavam após o aniversário de 72 anos de Sua Santidade, bonita festa tibetana que sempre acontece no dia 06 de julho.

7 dias que começavam no dia 07/07/07.

Estudamos o Voto do Bodisatva, Bodisatva é aquele que dedica sua vida à elevação espiritual do próximo.

Após estes valiosos aprendizados, de tão precioso professor, sob a perspectiva de textos de Tsongkapha, considerado o grande filósofo budista tibetano, acabamos por desenvolver uma perspectiva muito abrangente.

Esta perspectiva não engloba apenas, os diferentes tipos de linhagens e práticas budistas, mas também, as diferentes formas de relação com o sagrado, que existem em diferentes tradições religiosas.

Visitamos na seqüência, o local do primeiro sermão do Buda, Sarnath, a cidade sagrada de Varanasi, Rajgir, onde Buda ensinou, e depois, Bodigaya, local da iluminação.

Observamos o caminho de um yogue, que buscou aprender os diferentes tipos de ensinamentos disponíveis em sua época.

Ao reconhecer a estrutura do sofrimento em nossas vidas, e nos apontar alternativas para um caminho de compaixão, felicidade e amor, ensinou a todos.

Buda ensinou brâmanes, pessoas simples, reis, monges e comerciantes.

Não aceitava nenhum tipo de veneração, não permitia sua reprodução em imagens, para que não fossem adoradas.

Preocupava-se com o desabrochar do potencial de liberação de cada ser.

Se existe Deus? Qual a importância desta resposta, se você não ages de forma amorosa, compassiva, e livre de emoções perturbadoras.

Visitando o local que é central para todos os praticantes budistas, assistimos as diferentes formas de expressão desta busca, que é pessoal, que é interior.

Alguns recitam mantras, outros se prostram, outros rezam, e alguns, mantém as mãos em preces.

São coreanos, chineses, indianos, japoneses, tailandeses, vietnamitas, e até brasileiros, cada um na sua língua, de uma maneira diferente, buscando esta chamada liberação.

Como podemos ter a ousadia de dizer que o nosso caminho é o certo?

São tantos os caminhos que se apresentam.

Como podermos afirmar que nosso professor, lama, sensei é o melhor?

São tantos os bons mestres que se apresentam.

Não reconhecer a diversidade de expressão do sagrado, as infinitas possibilidades de superarmos as perturbações que nos impedem de nos elevarmos espiritualmente, é ir contra os ensinamentos do Buda.

Infelizmente, assistimos de vez em quando o enriquecimento de alguns supostos mestres, com dificuldades com seu ego, colocando-se acima de tradições, e ensinamentos fundamentais, colocando seu ensinamento como o melhor, ou o mais rápido. Trazendo benefícios para si, e não para seu seguidor, ou aluno.

Segundo os próprios ensinamentos do Dalai Lama, reconhecer as diferentes necessidades e capacidades de cada ser, e estabelecer a prática e o caminho adequado para ele. Este é o papel de um bom professor.

Com base nisto, ele reforça, sua prática espiritual deve despertar um coração amoroso, se ela não o faz, então, algo está errado. Este sim, um verdadeiro ensinamento budista.

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A Prática da Essência

cadernos+de+yoga13 - A Prática da EssênciaTexto de 31/08/2006

Procuro escrever este texto baseado em fatos, na tentativa de diminuir ao máximo as influências das distorções que meu pobre ego pode criar.

Dedico o mesmo aos mestres me influenciam, e que eu possa ser digno de seus valiosos ensinamentos, principalmente do Prof. Hermógenes, Sua Santidade o Dalai Lama e dos principais alunos de grande yogue Krishnamacharya.


Para minha surpresa, o texto foi vítima de censura em uma determinada Associação de Yoga, e apresentaram dois motivos para tal: primeiro o uso da expressão “mestre de pose”, depois, por ressaltar que o yoga de verdade, não necessita tantas sub-categorias ou classificações. Tire você mesmo a sua impressão…

O segundo aforismo do Yoga Sutra de Patanjali é: yogah cittavrtti nirodhah.

Segundo a explicação dada por Iyengar, que possui um dos melhores comentários deste Sutra, isto significa, yoga é a cessação dos movimentos na consciência.


Sábado, 29 de abril de 2006, no Ginásio do Ibirapuera em São Paulo, 7.500 pessoas aplaudem de pé a entrada do Dalai Lama, em sua terceira visita ao Brasil, e no começo de sua palestra diz: Tenho mais de 70 anos, já passei por muitos sofrimentos e dificuldades, em todo este tempo, o melhor e mais seguro local onde encontro refúgio é em uma mente tranqüila.


O professor Hermógenes, em seu livro, Yoga para Nervosos, diz na página 121: “Yogaterapia consiste em restaurar a paz interna…Yoga atua no sentido de dar-lhe a concentração necessária, conseqüentemente gerando poder, segurança, penetração, equanimidade, coerência, harmonia e bem-estar. Como psicosíntese, yoga reduz a fluidez e a dispersão.”


Ao relacionar os parágrafos anteriores, percebo que estes grandes mestres citados não nos direcionam para uma prática de desenvolvimento físico, mas para uma prática que vai além do que seria defendido por um simples ‘mestre de pose”, ou seja, aquele que se preocupa apenas com ásanas (posturas físicas).

No seu principal livro, Coração do Yoga (Heart of Yoga), Desikachar, filho de Krishnamacharya, ressalta que seu pai nunca viu o yoga como apenas uma prática física, mas sim como passos para se alcançar o que é mais elevado. Esta busca do elevado, respeitando sempre a tradição religiosa do praticante. Em entrevista com o mesmo Desikachar, ele conta que seu pai ao cumprimentar um muçulmano, o fazia da forma muçulmana, e lamenta muito que professores agreguem crenças religiosas com a prática do yoga, como é feito comumente com o hinduísmo e alguns professores na Índia.

Em relação ao método seguido pelo famoso yogue, a prática de ásanas parece ter sido mais fielmente respeitada fielmente por Pattabhi Jois (precursor do Ashtanga Yoga), e Ramaswami (o aluno fora da família que estudou mais tempo), este último, mantém o foco no Vinyasa (movimento entre os ásanas), mas bastante preocupado com a gradualidade na execução. Já o filho, Desikachar, o companheiro de mais tempo, e mais próximo do grande yogue, estudou com profunda dedicação e devoção na fase mais madura de Krishnamacharya, até a sua morte em 1989, onde o papel da meditação, da cura e da devoção é incrementado. Já Iyengar, estudou com krishnamacharya por 2 anos, muito jovem, desenvolveu a maior parte de sua imensa sabedoria através de sua própria prática, mas sempre reverenciou seu mestre com fonte inspiradora e grande yogue. Conta-se que no aniversário de 60 anos de Iyengar, Krishnamacharya salienta para seu aluno a importância de se focar menos em ásanas e mais na meditação.


Bem, de tudo isto, pelo que podemos ver, a prática de essência nos leva a meditação. Este caminho para a meditação também pode ser observado no Yoga Sutra, no capítulo II, aforismo 29: yama niyama asana pranayama pratyahara dharana dhyana samadhaya astau angani, que quer dizer, regras morais (yama), constante observância (niyama), posturas (asana), regulação da respiração (pranayama), internalização dos sentidos na direção da fonte (pratyahara), concentração (dharana), meditação (dhyana) e absorção da consciência no Ser (samadhi); são os oito constituintes do yoga. Esta tradução está de acordo com Iyengar, que ainda salienta: “Os cinco primeiros aspectos do yoga são esforços individuais para evolução da consciência, enquanto dharana, dhyana e samadhi são a manifestação universal ou os naturais estados de yoga. (Light on Yoga, p.142).


Falando de meditação o Prof. Hermógenes, no seu livro Yoga para Nervosos, p.174 apresenta: “A pureza mental deve ser defendida…Mantenha vigilância e resguarde a sua mente. Procure perceber-se de quando e como ocorrem tais nocivas sintonias involuntárias. Procure também sustar as associações de idéias ou de imagens inadequadas à saúde, à paz e a Deus.”


Portanto, temos orientações importantes e claras de qual deve ser a essência da prática, e como devemos focar nossas atividades na busca de uma rotina de meditação.


Outro detalhe importante a destacar é o efeito de cura e saúde nas sugestões destes mestres citados, o Dalai Lama faz isso quando conversa com renomados cientistas sobre os efeitos maléficos das emoções perturbadoras, ou quando Desikachar é surpreendido ao ver uma mulher ocidental entrar em sua casa e reverenciar seu pai, pela cura realizada, ou ainda, quando o Prof. Hermógenes, que através de sua cura de pneumonia, curou a tantos com as práticas detalhadas em seus livros.


Mediante estas orientações, podemos observar alguns pontos importantes sobre a formação de professores de yoga, e o distanciamento desta formação da essência da prática.

Uma vez em conversa com o professor Hermógenes, observarmos a profusão de cursos de formação de professores de yoga, e ele alertou-me sobre o cuidado que devemos ter sobre este processo de “comercialização do yoga”, com cursos caros, fracos e muitas vezes longe de qualquer orientação baseada nos textos clássicos. Observam-se duas tendências nesta comercialização, a especialização em aspectos físico-corporais, ou em interpretações pessoais de textos clássicos. Acredito que seja desnecessário falar de uma terceira categoria, daqueles que se dão os títulos a si próprios de mestres ou professores, que seria então uma outra categoria de auto-formação.

A especialização nos aspectos físico-corporais deveria evitar a falha de tratar o yoga como se fosse uma disciplina da medicina, da fisioterapia, ou da educação física, ou pior, apenas a base para o desenvolvimento da prática de Pilates, isto é uma miniaturização de seu universo e do seu entendimento. Yoga é muito mais que apenas o aspecto físico-corporal.

Quanto à tendência de interpretações pessoais de textos clássicos, isto ainda é mais complexo, pois podemos encontrar facilmente nas livrarias viagens egóico-interpretativas. A maioria desconhece que a Índia criou a primeira universidade residencial que se tem conhecimento, por volta de 600 a.C., se chamava Nalanda, e tinha, no seu auge, 2.000 funcionários e professores, e 10.000 alunos. Lá, se estudava todas as tradições filosóficas indianas, e foi local de ensinamentos de Sidarta Gautama, o Buda, que revolucionou o estudo filosófico da Índia, e a partir daí, a própria universidade acabou por ter em sua maioria filósofos da linha budista, pois estes eram os vencedores dos debates que ocorriam então, para verificar qual a linha filosófica mais estruturada.

O texto de Patanjali, o Yoga Sutra, já apresenta um caráter reformista da estrutura filosófica Jainista, Védica e Samkhya, seu texto parece ser da mesma época em que os ensinamentos do Buda já se espalhavam, embora os ensinamentos do Buda pedissem para ser testados minuciosamente por seus praticantes.

Esta necessidade de testes gerou uma tradição de debates filosóficos, e é verificável a melhor estruturação de pensamentos oriunda dos infinitos debates quando observamos os textos de Nagarjuna, Chandrakirti, Shantideva e Atisha, este último, um dos grandes responsáveis pela estruturação do budismo tibetano, no século XI.

A universidade de Nalanda foi destruída em 1193, durante as invasões muçulmanas, e sua estrutura de ensino que influencia a toda a cultura oriental até hoje, foi perpetuada de maneira mais pura no Tibet (até a invasão chinesa em 1959, hoje retornando à Índia).

Ressalto a tradição de debates filosóficos de Nalanda, pois esta produziu textos maravilhosos sobre as perturbações da mente, e a busca do caminho espiritual, resultado de uma estrutura de estudo filosófico até hoje única, e muitos falsos mestres ocidentais sobrepõem seu pseudo-conhecimento sobre os textos clássicos a gerações de mestres que debateram por toda uma vida estes temas.

A análise dos textos clássicos deveria respeitar estas tradições de estudo, um exemplo prático disto é Desikachar, que estudou por muitos anos, e 8 vezes, o Yoga Sutra com seu pai, que era considerado um grande erudito nas diversas tradições filosófico indianas.

Estas análises requerem anos de estudo aprofundado e dedicação, e isto não é visto na formação de professores. Uma pequena amostra de como deveria ser um estudo e análise de textos clássicos está no livro O Essencial da Vida, do Prof. Hermógenes, onde as tradições religiosas são vistas sob o ponto de vista principalmente da Bíblia e do Bagavad Gita, e a importância de trabalharmos os venenos do ego.

Para caminharmos para uma conclusão, vê-se a bondade de mestres que compreendem a nossa dificuldade de compreensão e confusão que geramos entre tantos ensinamentos, e nos ensinam atalhos para que tenhamos uma existência mais significativa.

Sentimos isto quando o Prof. Hermógenes ressalta que devemos “Servir, Orar e Vigiar”, o Dalai-Lama explica que “o mais importante é o desenvolvimento de um coração caloroso”, e Krishnamacharya não ensinou Desikachar a parar os próprios batimentos cardíacos como ele fazia, pois “só devemos ensinar o que é útil para os outros.”

De tantos dados e citações, parece que o melhor caminho seria buscar um corpo mais saudável pelo yoga, para uma profunda e sincera prática de meditação, reduzindo nossas perturbações mentais, e nos tornando seres mais amorosos, menos violentos e mais úteis a todos.

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